Historiadora aponta para crise financeira próxima
A combinação explosiva de investimentos bilionários em inteligência artificial (IA) e criptomoedas, junto com um crescimento acelerado da dívida global, que já ultrapassa três vezes o PIB do mundo, pode ser um grande gatilho para a instabilidade nos mercados financeiros. Essa visão vem da autora Carlota Perez, que já escreveu sobre a dinâmica das bolhas financeiras e como elas estão ligadas a inovações tecnológicas.
No seu livro, Perez destaca que ciclos de inovação são sempre marcados por excessos e pela formação de bolhas. E a revolução da IA não foge à regra. Ela faz parte do quinto ciclo de aceleração que começou lá na década de 1970, quando a tecnologia da informação começou a ganhar destaque. Antes disso, tivemos a era da produção em massa, a revolução do aço, e outras grandes transformações que mudaram a forma como vivemos e trabalhamos. Todas essas revoluções trouxeram não apenas inovações, mas também desafios, como a criação de novas cidades e a decadência de outras.
Com a IA, a expectativa é que esse padrão se repita, e talvez até com impactos ainda maiores. O investimento em infraestrutura para essa tecnologia está sendo monumental, apontando para uma transformação mais rápida e abrangente que já vimos antes.
Investimentos em IA nos EUA: previsão de US$ 3 trilhões
Um levantamento do JP Morgan mostra que, até o final de 2026, apenas quatro gigantes – Amazon, Google, Meta e Microsoft – planejam investir juntos cerca de US$ 750 bilhões em data centers. Esses centros são essenciais para processar os grandes volumes de dados necessários para os modelos de IA.
Recentemente, os Estados Unidos também investiram US$ 8,9 bilhões para adquirir 10% da fabricante de chips Intel, um movimento que novamente une o setor público e privado em um contexto de competição acirrada com a China.
As estimativas do JP Morgan indicam que os EUA devem investir ao menos US$ 3 trilhões em infraestrutura para IA. Esse aporte poderia impulsionar o mercado, trazendo entre US$ 13 e US$ 16 trilhões adicionais para a capitalização do índice S&P 500, que é uma referência do mercado acionário americano.
No entanto, mesmo com esses investimentos pesados, analistas e investidores já estão se mostrando preocupados se as empresas conseguirão realmente trazer retornos sobre tudo que estão colocando no setor. Desde o lançamento do ChatGPT, em 2022, o mercado teve uma valorização estreita, mas agora resultados positivos não são mais garantia de confiança por parte dos investidores.
Um exemplo interessante é o da Nvidia, a líder em fabricação de chips para IA — suas ações caíram 5% logo após a divulgação de um recorde de receita trimestral, mesmo com números impressionantes como US$ 46,7 bilhões.
Ainda assim, a OpenAI, a empresa por trás do ChatGPT, é deficitária por conta dos altos custos de pesquisa e desenvolvimento. Perez observa que o modo como as empresas de IA conseguirão gerar lucro em meio a essa transformação ainda é uma incógnita. Nesse cenário, crises financeiras podem surgir, e a historiadora também considera que “nunca vi uma era dourada acontecer sem um crash”.
Segundo ela, os mercados atualmente aparentam distorções, priorizando a especulação em vez da produção real. A ascensão das criptomoedas também é vista como um sinal dessa bolha.
O papel das bolhas na inovação financeira
Mesmo com os estragos que podem causar, as bolhas especulativas não são necessariamente ruins. Elas têm um papel importante no ciclo de inovação, direcionando capital para a construção de infraestrutura. Isso, por sua vez, possibilita a ampla adoção de novas tecnologias e seus benefícios sociais e econômicos.
A história nos ensina que o sucesso de uma tecnologia emergente depende muito da capacidade da sociedade de moldá-la para o bem comum. Portanto, é fundamental que a regulação encontre um equilíbrio entre a inovação e a proteção contra disrupções no trabalho ou usos indevidos das tecnologias.
Embora a IA represente uma promessa de nova era de ouro, a concentração de poder nas mãos das big techs, a instabilidade dos mercados, o aumento do populismo e a crise climática trazem desafios que precisam ser enfrentados pela humanidade. E isso não será algo que as máquinas possam fazer por nós.