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Surto de US$ 100 bilhões em Bitcoin se concentra em um comprador

O cenário do Bitcoin que prometia ser uma verdadeira revolução está passando por uma mudança inesperada. A quantidade de empresas que usam a criptomoeda como reserva de tesouraria está diminuindo rapidamente, e a maior parte desse movimento agora gira em torno de uma única companhia: a Strategy. Sob a liderança de Michael Saylor, a empresa comprou cerca de 45.000 BTC nos últimos 30 dias, o maior volume desde abril de 2025. Enquanto isso, as outras empresas acumularam apenas cerca de 1.000 BTC no mesmo período, uma queda impressionante de 99% em relação ao que ocorria no auge, em agosto de 2025.

Em outubro do ano passado, a situação era bem diferente. A maioria das compras era realizada por empresas fora da Strategy, responsáveis por 95% das aquisições. A empolgação em torno desse movimento era vista como um sinal de um crescimento sustentável. Agora, com a situação invertida, a pergunta no ar é: essa dependência de um único comprador significa que o modelo é maduro ou que está prestes a desmoronar?

O que está por trás dessa movimentação?

Para entender melhor, imagine um dia movimentado em um grande comércio, como a famosa Rua 25 de Março em São Paulo durante o Natal. Vários atacadistas estão lá, comprando ao mesmo tempo, fazendo com que os preços subam. Mas, de repente, quase todos param de comprar e só um grande lojista continua a acumular estoque. Embora isso não gere uma queda imediata de preços, a dinâmica muda completamente. A impressão de que “todo mundo está comprando” desaparece, e isso influencia o mercado.

Esse ciclo foi o que impulsionou a adoção do Bitcoin por empresas nos últimos anos. As empresas perceberam que podiam emitir ações para levantar capital, usar esse dinheiro para comprar Bitcoin e, assim, aumentar o valor de suas ações. Entretanto, esse esquema só funciona bem enquanto o preço do Bitcoin está subindo e o mercado está disposto a financiar novos projetos. Com a criptomoeda em uma fase de estabilização e crédito mais restrito, as condições mudaram, e a atratividade de tal estratégia diminuiu.

A Strategy, devido ao seu histórico, ainda tem conseguido captar recursos, com um plano ambicioso de levantar até US$ 84 bilhões até 2027. Outras empresas, sem a mesma vantagem, estão se afastando do jogo. Recentemente, a Strategy acumulou um total de 762.099 BTC, com um custo médio de US$ 66.384 por unidade.

O que os dados revelam?

  • Compras da Strategy nos últimos 30 dias: 45.000 BTC (aprox. US$ 3,9 bilhões)‘O Monopólio de Saylor’
    Esse volume é o maior desde abril de 2025 e indica que a **Strategy** está aumentando suas aquisições, enquanto os concorrentes ficam inativos.
  • Compras de todas as demais empresas nos últimos 30 dias: ~1.000 BTC (aprox. US$ 87 milhões)‘O Pelotão que Ficou para Trás’
    Uma queda drástica de 99% em relação ao que se via no auge. A quantidade de empresas ativas também reduziu significativamente, passando de 54 para apenas 13 compras registradas.
  • Participação da Strategy no total corporativo: 98%‘A Dependência Estrutural’
    Em outubro de 2024, a **Strategy** correspondia a apenas 5% das compras corporativas. Em menos de seis meses, essa participação disparou, o que revela a fragilidade deste movimento, que antes parecia diversificado.
  • Total de BTC em tesouraria corporativa da Strategy: 762.099 BTC‘A Fortaleza de Saylor’
    Esse montante corresponde a mais de 3% de todo o Bitcoin existente, colocando a empresa em uma posição delicada: qualquer queda significativa do preço pode pressionar seus resultados.

Os dados mostram um quadro claro de concentração de poder: o que parecia uma onda de adoção corporativa agora se revela uma estratégia específica, sustentada por condições únicas do mercado. Apenas a Strategy permanece firme, enquanto outras empresas, como a MARA Holdings, começaram a vender seus bitcoins para saldar dívidas, demonstrando que a situação é bem mais complexa do que aparentava.

O que muda na estrutura do mercado?

Esse cenário de 98% da demanda em torno de um único comprador não é apenas uma estatística — é uma mudança completa na forma como o mercado percebe e precifica o Bitcoin. Quando várias empresas estavam na corrida, isso ajudava a criar uma boa expectativa sobre o preço. Mas agora, com um único jogador em cena, essa narrativa perde força.

O funcionamento do modelo de tesouraria em Bitcoin era como um ciclo virtuoso. Aumentar as emissões produzia um efeito cascata de alta em toda a estrutura. No entanto, esses ciclos também podem inverter. Se o Bitcoin começa a cair de forma prolongada, a capacidade de compra das empresas e o valor de suas ações podem ser seriamente afetados.

Vendo por outro ângulo, os ETFs de Bitcoin podem oferecer uma nova esperança, diversificando a demanda e atraindo investidores individuais. A narrativa de que as empresas estavam acumulando Bitcoin pode perder seu poder motivador se não houver mais concorrência.

No presente, a Strategy continua sendo uma fonte sólida de demanda com seu ambicioso plano “42/42”, mas o cenário a médio prazo é mais frágil, com menos compradores e uma narrativa que precisa ser reinventada.

Como isso afeta o investidor brasileiro?

Para os investidores brasileiros, essa concentração tem algumas consequências diretas. O primeiro impacto é o Efeito BRL: com o dólar variando entre R$ 5,70 e R$ 5,90, o Bitcoin ainda pode parecer caro em reais, mesmo que o preço em dólares esteja estagnado. Isso significa que quem investiu nos últimos 12 meses pode estar vendo lucros dependendo do câmbio — e esse cenário pode mudar.

O risco imediato não está na estratégia da Strategy, que tem capital para suportar suas operações por algum tempo. O verdadeiro risco é a narrativa sobre a adoção corporativa perder força, o que poderia desincentivar novos investidores institucionais e manter o Bitcoin em uma faixa lateral, impactando a percepção de valor na criptomoeda.

Investidores que utilizam plataformas como Mercado Bitcoin ou Foxbit devem considerar fazer aportes regulares, uma estratégia conhecida como DCA (Custo Médio em Dólar). Isso ajuda a acumular posições de forma mais equilibrada, mesmo nos momentos de estabilidade de preços.

Para quem prefere investir através da bolsa brasileira, opções como os ETFs HASH11 e QBTC11 podem ser interessantes, permitindo exposição ao Bitcoin sem os desafios da custódia.

Riscos e o que observar

Risco de Dependência Estrutural: a dominância de um único comprador na demanda pode ser perigosa. Se a Strategy enfrentar dificuldades, seja por mudanças econômicas ou restrições de crédito, isso pode afetar todo o mercado.

Risco de Reversão de Narrativa: a percepção de que a adoção corporativa era uma tendência crescente pode mudar rapidamente, levando analistas e investidores a reavaliar suas posições.

Risco de Pressão sobre o Custo Médio: a Strategy adquiriu BTC a um custo médio que está próximo do valor atual. Se o Bitcoin não se mantiver acima de US$ 60.000, pode haver impactos significativos nas suas operações e nas expectativas do mercado.

Nos próximos dias, a atenção deve se voltar para as próximas divulgações da Strategy sobre suas compras e suas decisões de captação de recursos. Sinais de mudanças nas condições de financiamento podem ser o alerta que os investidores estão aguardando. Enquanto isso, a paciência continua sendo uma virtude essencial.

Rafael Cockell

Administrador, com pós-graduação em Marketing Digital. Cerca de 4 anos de experiência com redação de conteúdos para web.

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