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Altcoins enfrentam queda de 80% com aperto monetário

O volume de negociações na Binance, a maior corretora de criptomoedas do mundo, sofreu uma queda drástica. Ele despencou de uma faixa que ficava entre US$ 40 e US$ 50 bilhões para apenas US$ 7,7 bilhões (cerca de R$ 46,2 bilhões). Isso representa uma retração severa de aproximadamente 80% em comparação com os números de outubro. E não é só a Binance que está enfrentando isso: outras grandes exchanges também viram o volume total cair de US$ 91 bilhões para US$ 18,8 bilhões. Tudo isso mostra que o apetite por criptoativos está bem reduzido em um cenário global onde a liquidez financeira se aperta.

As discussões nas mesas de operação agora giram em torno de uma questão central: será que estamos só testemunhando uma limpeza passageira, ou a dinâmica do mercado mudou de forma mais estrutural, colocando um ponto final na “altseason” como conhecíamos?

O que está por trás dessa movimentação?

Pensando de forma simples, visualize o mercado de criptomoedas como um grande sistema de abastecimento de água, similar ao Sistema Cantareira nos tempos de seca. O Bitcoin é o reservatório principal: mesmo quando os níveis estão baixos, ele é o último a secar e onde o abastecimento se concentra. As altcoins, por outro lado, são como aquelas fontes e piscinas dos condomínios.

Quando o fluxo de dinheiro fácil para, as autoridades monetárias fecham as comportas. A água (capital) que sobra vai apenas para o essencial — o Bitcoin. Ninguém investe em altcoins especulativas quando corre o risco de racionamento no abastecimento principal. Diante de juros mais altos e um mercado de trabalho instável, o investidor tende a priorizar a segurança do ativo mais líquido e confiável, como o Bitcoin, em vez de arriscar em projetos menores que podem se tornar voláteis sem um fluxo constante de capital.

Análises da Glassnode já alertavam para essa mudança estrutural, indicando que o fluxo de capital não está mais se movendo naturalmente em direção a ativos de menor capitalização como acontecia em ciclos anteriores.

Quais são os dados e fundamentos destacados?

A retração no mercado vai além de uma percepção vaga; ela é respaldada por métricas que mostram uma queda real no interesse especulativo. Aqui estão alguns pontos importantes:

  • Volume na Binance — “A Torneira Fechada”: O fluxo de US$ 40-50 bilhões despencou para US$ 7,7 bilhões. Com essa diminuição de 85%, a formação dos preços das altcoins fica instável, sujeita a manipulações e quedas abruptas com vendas mínimas.

  • Interesse de Busca — “O Silêncio do Varejo”: Dados do Google Trends mostraram que as pesquisas por “altcoins” e “criptomoedas” caíram drasticamente após o pico de agosto de 2025. Isso confirma o sombreamento do interesse por parte do investidor de varejo, que sempre foi fundamental para as grandes altas.

  • Divergência Monetária — “O Descolamento”: Enquanto a oferta monetária global M2 subiu em torno de 12% desde meados de 2025, o Bitcoin caiu 35% no mesmo período. Isso indica que, mesmo com mais dinheiro circulando no mundo, a aversão ao risco, influenciada por incertezas geopolíticas e dados de emprego ruins nos EUA, está impedindo que esse capital chegue ao setor de cripto.

Assim, os dados sinalizam um cenário de “stagflação” no universo cripto. Os custos estão subindo, mas o capital novo não está entrando, deixando o mercado estagnado e arriscado para quem detém activos de baixa liquidez.

O que muda na estrutura do mercado?

A queda no volume traz uma nova realidade para a ideia de “altseason”. Antigamente, a expectativa era que o dinheiro fluísse com previsibilidade: o Bitcoin subia, estagnava e os lucros se deslocavam para Ethereum e, depois, para as altcoins menores. Porém, Justin d’Anethan, da Arctic Digital, destaca que as condições atuais são bem mais apertadas do que nos ciclos passados.

Isso novamente nos coloca em um mercado seletivo. A liquidez agora não é mais algo que eleva todos os ativos; ela se tornou um recurso escasso e direcionado. Sammi Li, CEO da exchange Ju.com, menciona que as futuras altas provavelmente serão focadas em histórias específicas, como ativos do mundo real ou infraestrutura, que convençam os investidores institucionais a se exporem.

Para quem opera, isso marca o fim da estratégia de “pulverizar e esperar”. O ambiente atual vai punir tokens que não tenham uma utilidade clara ou uma comunidade forte ao seu redor. A queda de volume lembra períodos sombrios do passado, e mostra como as quedas atuais das altcoins são graves, com muitos ativos já sofrendo mais do que durante o colapso da FTX.

Como isso afeta o investidor brasileiro?

Para o investidor brasileiro, a situação pede mais cautela do que nunca. Com o dólar em alta, a queda das altcoins em dólares se torna ainda mais intensa ao ser convertida para o Real, afetando diretamente o poder de compra de quem investe. Além disso, a falta de volume global tem um impacto direto na liquidez das corretoras locais, como Mercado Bitcoin e Foxbit, aumentando a diferença entre compra e venda.

Além disso, é importante estar de olho na Receita Federal. Muitos investidores, ao tentarem equilibrar suas carteiras, podem acabar realizando vendas que geram eventos tributáveis sem perceber. A isenção de R$ 35.000 para vendas mensais no Brasil se aplica ao total das vendas. Assim, se você vender R$ 20 mil de Bitcoin e R$ 20 mil de uma altcoin no mesmo mês, perde a isenção.

A estratégia recomendada no momento, segundo especialistas, é concentrar-se em ativos de qualidade. Fugir de ativos mais exóticos e focar na liquidez do Bitcoin ou, para quem está na B3, em ETFs já consolidados, pode ser a chave para preservar seu capital e evitar perdas significativas.

Quais níveis técnicos importam agora?

Como o Bitcoin é a referência para o movimento das altcoins, a atenção agora se volta para níveis-chave que podem indicar se teremos uma reversão ou mais dificuldades pela frente:

  • US$ 70.400 (aprox. R$ 422.400) — “O Pivô de Tensão”: Manter o preço do Bitcoin acima deste nível é crucial para evitar que o medo transforme-se em pânico entre as altcoins.

  • US$ 7,7 bilhões (Volume) — “O Piso de Concreto”: Este é o volume atual da Binance. Uma queda abaixo desse nível pode sinalizar uma capitulação dos traders de varejo, o que curiosamente poderia estabelecer um fundo de mercado.

  • US$ 75.000 (aprox. R$ 450.000) — “O Teto de Vidro”: Essa é a resistência que o Bitcoin não conseguiu manter. Uma superação sólida desse nível pode ser o que faltava para trazer de volta a liquidez ao ecossistema.

Riscos e o que observar

O principal risco neste momento é a apatia prolongada. Mercados em baixa e voláteis podem apresentar oportunidades, mas aqueles sem volume e sem interesse tendem a sangrar lentamente.

  • Dados de Emprego nos EUA — “O Termômetro Macro”: Se os números continuarem ruins, o medo de recessão pode prevalecer sobre a expectativa de cortes de juros, afastando os investidores de riscos, como as criptos.

  • Tensão Geopolítica — “O Cisne Negro”: A alta nos preços do petróleo decorrente de conflitos no Oriente Médio pode consumir a liquidez disponível para investimentos mais arriscados.

Dentro desse cenário, a chave vai ser observar o comportamento do volume nas exchanges centralizadas. Um aumento no volume, acompanhado de preços estáveis, pode significar uma possível acumulação. Até lá, a regra é clara: evite entrar em mercados em queda acentuada. E, como sempre lembramos, a paciência é o único ativo que realmente não desvaloriza.

Rafael Cockell

Administrador, com pós-graduação em Marketing Digital. Cerca de 4 anos de experiência com redação de conteúdos para web.

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