Avanço regulatório em cripto no Brasil gera preocupações fiscais
Líderes de corretoras de criptomoedas marcaram presença na Blockchain Conference Brasil para compartilhar suas impressões sobre as novas regras que estão moldando o mercado brasileiro. Em um panorama onde a regulação está em constante evolução, o fundador da Foxbit, João Canhada, ressaltou a importância do trabalho que aconteceu nos bastidores. Ele destacou que as versões iniciais da regulamentação eram bem mais rígidas.
João comentou: “A gente trabalhou para que a regulação não fosse tão pesada”, reforçando que algumas decisões recentes evitaram cenários ainda mais restritivos para as corretoras e para os usuários, como a proibição da autocustódia de criptomoedas. Em suas palavras, “o maior erro é não ter Bitcoin. O segundo é não ter autocustódia. Se você não tem autocustódia, você não é dono, é refém”.
No painel, moderado por Rodrigo Marinho, também estavam Thiago Sarandy (Binance), Bel Longhi (Ripple) e Júlia Rosin (Coinbase). Bel Longhi, diretora de compliance da Ripple, trouxe à tona o que considera ser uma virada global para os ativos digitais em 2025. O ano trouxe novas regulamentações importantes em países como os Estados Unidos e na Europa, que, segundo ela, abriram as portas para grandes instituições no mercado.
Os novos movimentos, como o Genius Act e o MiCA, trouxeram clareza e incentivaram gigantes como Swift, JPMorgan e BlackRock a começarem a usar blockchain. Para ela, a adoção de um modelo neutral pelo Banco Central do Brasil para pagamentos internacionais foi uma jogada acertada, pois tratou transações em blockchain com a mesma importância das operações tradicionais de câmbio. “O Brasil fez um ótimo trabalho. É um modelo similar ao que a Suíça desenvolveu”, disse.
Thiago Sarandy, da Binance, destacou as vitórias do setor nesta nova fase regulatória, como a derrubada de uma medida provisória que poderia resultar em nova tribulação e a retirada da necessidade de um livro de ordens global na regulamentação cambial.
Os pontos de atenção da regulação
Bel Longhi fez um alerta sobre os impactos tributários dessa nova regulação: “O problema não é pagar tributo. É pagar 3,5% em toda a cadeia de pagamentos internacionais. Isso é gigante e preocupante.” Ela expressou sua preocupação de que o jeito como o Banco Central incluiu a compra e venda de stablecoins pode empurrar os usuários para ativos mais voláteis. “A medida pode incentivar ativos mais arriscados, e não sei se era esse o objetivo.”
Apesar das preocupações, Bel comentou que o Banco Central está aberto a ajustes, mostrando disposição para aprender junto ao mercado. Por outro lado, Júlia Rosin, da Coinbase, mencionou que a empresa está se aproximando do Ministério da Fazenda para dialogar sobre questões tributárias e agendar uma reunião com o ministro Fernando Haddad. “O setor não é contra impostos. Queremos um sistema que permita a sobrevivência do mercado.”
Ela também apontou como um desafio a falta de alinhamento entre os órgãos reguladores. De acordo com Júlia, o Banco Central, a Receita e a CVM são autônomos, e isso complica a criação de normas que conversem entre si. Ela mencionou a Travel Rule, que gera incompatibilidades que complicam a coleta de dados exigidos pelo Brasil, mas que nem sempre são necessários em outros países. “Se a corretora de fora não é obrigada a guardar a informação, não vai compartilhar. Esse é um desafio global que precisamos discutir com urgência.”
Thiago, da Binance, reforçou a necessidade de evitar a criação de um imposto transacional, semelhante à antiga CPMF, lembrando que na Índia a cobrança de 1% em movimentações levou muitos usuários a deixarem as plataformas locais. “Um imposto mal pensado pode prejudicar o mercado inteiro, afastar usuários e até matar a tecnologia. Esse é o principal risco.”
Outro ponto levantado foi a limitação de produtos, como operações de margem, no Brasil, que tentam encaixar o setor cripto nas regras tradicionais do sistema financeiro. Thiago destacou a importância da comunidade cripto, que é forte e busca inovação fora do modelo convencional. “Uma regulação muito pesada pode desincentivar a transparência que o Banco Central deseja em relação às transações.”
João Canhada, da Foxbit, também comentou que as corretoras querem oferecer produtos como derivativos e crédito, mas a regulamentação atual é um empecilho. “No DeFi, eu consigo fazer crédito em segundos. No Brasil, isso exige uma burocracia que não é eficiente.”
O que esperar para o futuro?
Bel Longhi trouxe à tona o projeto de lei do deputado Lucas Ramos que discute a regulamentação de stablecoins. Para ela, essa é uma pauta urgente, considerando que a Receita Federal revelou que mais de 70% do uso de cripto no Brasil é referente a stablecoins. O projeto visa proteger o consumidor e garantir segurança ao emissor, com exigências de reservas auditáveis. No entanto, ela ressaltou a necessidade de garantir que essas stablecoins possam circular livremente entre os países, algo que ainda não está garantido no texto.
Ela mencionou também que a proposta precisa se alinhar à Resolução 520 do Banco Central, que já possui suas próprias definições sobre reservas para stablecoins. “A resolução foi além do que era necessário, mas é um ponto que podemos trabalhar junto com o Banco Central.”
Nos momentos finais, Bel resumiu o sentimento do grupo: “As conquistas desse ano foram maiores do que os problemas.”





