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Blockchain: desafios de Apollo a Artemis

A missão Artemis II trouxe a Lua de volta ao centro das conversas pelo mundo, mas o essencial vai além da viagem em si. O que realmente chama a atenção é o novo modelo de sistema que torna tudo isso possível. Mais de cinquenta anos depois do programa Apollo, o retorno à nossa lua não é só um feito tecnológico, mas reflete uma mudança significativa na maneira como sistemas complexos são criados, financiados e coordenados. Em um mundo onde a centralização já não é mais tão eficaz, essa adaptação é crucial.

Quando olhamos para a década de 1960, percebemos que as questões eram diferentes. Em 1968, a Apollo 8 levou humanos para a órbita lunar, e no ano seguinte, a Apollo 11 fez o primeiro pouso. Nesse modelo, a NASA desempenhava um papel central, definindo toda a arquitetura e gerenciando a integração dos sistemas. Embora muitas empresas estivessem envolvidas, a decisão era dominada por uma estrutura hierárquica. Era mais fácil, porque um único centro coordenava todos os passos.

Esse tipo de estrutura só funcionou devido à concentração de recursos e a uma organização que possibilitava lidar com erros ao longo do tempo. O programa Apollo envolveu cerca de 400 mil pessoas e mais de 20 mil organizações, consumindo cerca de 4% do orçamento federal dos EUA. O importante não era só o montante financeiro investido, mas como o risco era gerenciado. Atrasos e incertezas eram absorvidos em um processo político que permitia que o projeto evoluísse, mesmo diante da falta de previsibilidade.

Agora, a realidade é bem diferente. Com o programa Artemis, a capacidade tecnológica, o financiamento e a execução não estão mais nas mãos de um único protagonista. A cápsula Orion e os sistemas de pouso desenvolvidos por empresas privadas mostram que a colaboração entre entidades com autonomia própria é a chave do projeto. A missão, inclusive, conta com a participação de astronautas de diferentes países, reforçando que a descentralização vai além da técnica e se estende também à organização.

Essa mudança impacta não apenas a escala do projeto, mas também o tipo de problemas que precisam ser resolvidos. Com o Apollo, a principal dificuldade era construir um sistema complexo sob uma única liderança. Já no Artemis, o desafio é garantir que diferentes componentes, feitos, financiados e operados por várias entidades, operem juntos como um sistema coerente. A ausência de um centro que supervisione tudo em tempo real exige novas abordagens.

O programa Artemis não foi idealizado como uma missão isolada; pelo contrário, é um passo rumo a uma presença contínua na Lua, com implicações que envolvem ciência, infraestrutura e até mesmo atividades econômicas. Um exemplo claro é a presença de gelo nas regiões polares da Lua. Esse gelo pode ser transformado em combustível, como hidrogênio e oxigênio. Em termos práticos, uma nave pode partir da Terra mais leve, reabastecer na Lua e seguir viagem. Ao produzir combustível localmente, mudamos totalmente a conta econômica das missões espaciais.

Esse cenário não é só um desafio tecnológico, mas agora é também um problema de coordenação econômica. Imagine várias empresas extraindo gelo na Lua, convertendo-o em combustível e utilizando esse recurso em diferentes missões. Se cada agente tiver seu próprio controle, isso tornará qualquer colaboração mais complicada e cara.

Esse tipo de situação já está presente na economia atual. Quando diferentes participantes usam registros independentes, precisamos alinhar as informações entre os sistemas, levando a processos mais longos e custosos. Essa limitação abriu espaço para novas tecnologias que focam na coordenação.

A solução em desenvolvimento não se concentra em uma única abordagem, mas na combinação de várias tecnologias. Desde que os humanos começaram a trabalhar na Lua, sistemas autônomos com inteligência artificial podem ter um papel fundamental. Um robô pode extrair o gelo, outro pode transformá-lo em combustível, enquanto um terceiro gerencia o armazenamento — tudo isso sem depender de instruções diretas da Terra.

Além disso, a comunicação entre esses sistemas enfrenta barreiras físicas relevantes. O atraso na transmissão de dados impede a sincronização em tempo real e exige redes que operem de forma eficiente, mesmo quando a informação não chega rapidamente.

Nesse novo arranjo, cada tecnologia tem seu papel. Sistemas distribuídos garantem que a operação continue, a inteligência artificial possibilita decisões rápidas e as redes resilientes viabilizam a comunicação. O blockchain entra em cena como a camada conectiva, permitindo que diferentes agentes compartilhem um registro verificável.

Contudo, a escolha do tipo de blockchain é importante. As redes públicas oferecem total transparência e não precisam de uma autoridade central para quem pode participar, o que é ideal para a proposta do programa Artemis. Mas essas redes públicas dependem de consenso em tempo real, algo que não funciona bem com as latências entre a Terra e a Lua. Uma rede privada poderia resolver esse problema, mas isso reintroduz o que se tentou evitar: a necessidade de um centro.

A alternativa que começa a se destacar são as arquiteturas híbridas ou federadas, onde cada agente opera sua própria rede local e essas redes se conectam quando necessário. Não é a solução dos sonhos, mas é uma saída viável que mantém a autonomia de cada parte sem exigir confiança em uma autoridade central.

Na prática, isso significa que a extração de gelo feita por um sistema pode ser registrada e validada automaticamente. O uso desse recurso por outro agente segue regras previamente definidas, permitindo que todos confiem na informação sem depender de uma única fonte.

Uma vez que essa infraestrutura esteja estabelecida, surge uma nova camada: a forma como o valor circula dentro desses sistemas. É aí que entram as criptomoedas e a tokenização. Por exemplo, um lote de combustível produzido na Lua pode ser representado digitalmente e trocado entre diferentes agentes, como já acontece com ativos digitais.

Essa mesma arquitetura que coordena sistemas pode também sustentar mercados. O contraste entre Apollo e Artemis vai além das diferenças de época. É a transição entre dois modelos que não funcionam mais da mesma forma. Durante muito tempo, era possível resolver a complexidade reunindo poder, decisões e risco em um centro. Esse modelo ainda existe, mas já não se encaixa bem quando múltiplos agentes precisam operar simultaneamente.

Isso já está acontecendo na Terra e, na Lua, será uma questão inevitável. O desafio não é novo, mas agora, ignorá-lo ficou bem mais complicado.

Rafael Cockell

Administrador, com pós-graduação em Marketing Digital. Cerca de 4 anos de experiência com redação de conteúdos para web.

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