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Cardano cria fundo de US$ 80 milhões para liquidez no DeFi

A comunidade Cardano deu um passo importante ao aprovar, por meio de governança on-chain, o primeiro trecho do Orion Fund. Esse fundo, que tem um total aproximado de US$ 80 milhões (cerca de R$ 464 milhões), é gerido pela Draper Dragon e acelerado pela Draper University. Desse montante, US$ 75 milhões vêm do tesouro do protocolo ao longo de seis anos, enquanto uma fase inicial de US$ 15 milhões (cerca de R$ 87 milhões) foi desbloqueada a partir do epoch 624. Vale lembrar que, atualmente, a Cardano possui cerca de US$ 137 milhões em total value locked (TVL) e pretende alcançar US$ 3 bilhões em economia on-chain até 2030.

O que se discute nas mesas de operação é se o Orion Fund vai realmente transformar a Cardano em um destino atraente para o capital que hoje está parado, especialmente o Bitcoin, ou se essa é apenas mais uma jogada arriscada em um ecossistema que ainda não conseguiu provar sua capacidade de reter liquidez entre redes em grande escala.

Contexto do mercado

Para entender a relevância da aprovação do Orion Fund, é preciso olhar para a trajetória de governança da Cardano. A era Voltaire, que começou com o hard fork Chang em setembro de 2024, foi um divisor de águas. Nesse novo modelo, o controle sobre a alocação do tesouro, que já acumula mais de 1,2 bilhão de ADA desde 2020, foi transferido para representantes delegados e um Comitê Constitucional. O Orion Fund é a primeira iniciativa a usar esse novo mecanismo para investir em startups, abandonando a abordagem de doações sem retorno do Project Catalyst.

Nesse cenário, apenas 0,79% de todo o Bitcoin em circulação está alocado em protocolos de DeFi, o que representa um reservatório enorme de liquidez ociosa no mercado cripto. Outros ecossistemas estão de olho nessa situação. Por exemplo, o Ethereum lidera com o wBTC, enquanto o Solana investe em soluções próprias para conectar redes, e agora a Circle mostra seu próprio token lastreado em BTC. A grande sacada da Cardano é tentar atrair Bitcoin sem depender de ativos enrolados, usando o modelo UTXO para uma compatibilidade nativa.

A escolha da Draper Dragon para ser a gestora do fundo não é por acaso. Tim Draper, um dos primeiros grandes investidores de Bitcoin, traz um histórico de apostar em projetos que, antes sem liquidez, se tornaram bem-sucedidos no mercado. A parceria com a Draper University complementa isso, acrescentando um fluxo de startups em estágio inicial ao fundo e criando uma estrutura comparável aos melhores fundos de venture capital do Vale do Silício, que combinam capital de risco com aceleração e conexão a uma rede específica.

Essa movimentação acontece em um quadro mais amplo de institucionalização do DeFi no mundo. O DeFi está em fase de teste, com trilhões de dólares em ativos tradicionais buscando rentabilidade em formato tokenizado. A meta de alcançar US$ 3 bilhões em TVL não é uma ambição isolada; está inserida na tentativa de captar um fluxo que já está em andamento.

Em termos simples, imagine

Pense no Orion Fund como um fundo de investimento imobiliário que está desenvolvendo um condomínio corporativo na Faria Lima. O terreno já está lá – a infraestrutura da Cardano existe há anos. O desafio é que a região ainda não tem muitos moradores, o que torna o metro quadrado mais barato. Para atrair grandes inquilinos, ou seja, a liquidez do Bitcoin, o condomínio precisa construir algumas amenities ainda inexistentes, como robustos protocolos DeFi, ferramentas de ativos do mundo real e segurança confiável.

O Orion Fund é o capital destinado a essas construções. Em vez de esperar que as pessoas cheguem naturalmente, o condomínio contrata uma incorporadora de respeito, a Draper Dragon, conhecida por realizar empreendimentos bem-sucedidos. O retorno esperado vai além da filantropia: cada startup financiada reverte participação e tokens ao fundo, que reinveste no ecossistema – um ciclo de capital diferente do modelo de doações do Project Catalyst.

Para o investidor brasileiro, é crucial entender que ele não está comprando um produto pronto. Ele está acreditando que o valor do terreno – representado pelo preço do ADA e pelo crescimento do TVL – vai superar os riscos da construção. E, como em qualquer obra na Faria Lima, o prazo prometido (2030) pode não bater com a entrega prática.

Quais são os dados e fundamentos destacados?

  • ‘O Cofre Aprovado’ – A comunidade liberou 50 milhões de **ADA** do tesouro do protocolo para o primeiro trecho, começando com uma fase de US$ 15 milhões, superando a votação necessária para DReps e o Comitê Constitucional, com início no epoch 624.
  • ‘O Gestor com Credencial’ – A **Draper Dragon** gerencia o fundo por meio de um Special Purpose Vehicle (SPV) com um painel público para acompanhamento de investimentos e desempenho. O fundo opera em tranches ao longo de seis anos, com co-investimentos que ampliam o capital além do tesouro da **Cardano**.
  • ‘O Ponto de Partida Humilde’ – O TVL atual da **Cardano** é de cerca de US$ 137 milhões, distante dos mais de US$ 60 bilhões do **Ethereum**. Multiplicar esse valor por mais de 22 vezes até 2030 é um grande desafio, exigindo um crescimento anual superior a 85% nos próximos cinco anos.
  • ‘A Isca para o Bitcoin’ – O fundo dará prioridade a projetos que tragam **Bitcoin** para o modelo UTXO da **Cardano** sem usar ativos enrolados. Apenas 0,79% do BTC em circulação está em DeFi hoje – mesmo captar uma fração disso pode representar bilhões em liquidez.
  • ‘O Sinal de Mercado Imediato’ – Depois do anúncio do **Orion Fund**, o valor do **ADA** subiu 12%, alcançando US$ 0,81, inspirado também por propostas de ETF de **ADA** nos EUA que circularam na mesma época.
  • ‘A Fundação Reposicionada’ – A **Cardano Foundation** encerrou 2025 com reservas de 287,5 milhões de CHF (cerca de US$ 361 milhões ou R$ 2,09 bilhões), mudando sua composição de ativos, aumentando a participação em **Bitcoin**.

Esses dados mostram uma rede que percebeu os limites do crescimento orgânico e decidiu entrar em uma estratégia mais agressiva de investimento externo. A combinação de um gestor respeitado, uma governança clara e uma abordagem única – sem ativos enrolados – diferencia o **Orion Fund** de muitos outros ecossistemas DeFi que tentaram crescer por meio de incentivos.

O que muda na estrutura do mercado?

O primeiro impacto é direto: a Cardano deixa de ser um ecossistema de crescimento passivo e se torna um agente ativo na competição por liquidez cross-chain. Ao investir em startups em vez de oferecer doações, o protocolo cria um ciclo de retorno. À medida que as startups financiadas crescem, o valor retorna ao tesouro e permite mais investimentos, atraindo mais liquidez e valorizando o ADA. É um modelo de flywheel que o Ethereum construiu ao longo de anos e que a Cardano tentará replicar rapidamente.

Essa mudança afeta a competição entre os ecossistemas DeFi pela liquidez do Bitcoin. O Ethereum sempre dominou esse espaço, mas agora, com a chegada da Cardano e sua proposta nativa de BTC, a competição fica mais acirrada. Isso pode ser positivo para o Bitcoin, criando mais opções, mas também coloca pressão em protocolos que usam ativos enrolados e podem ver seus modelos desafiados.

Por último, essa aprovação do Orion Fund é uma evidência do modelo de governança on-chain da Cardano. Se o fundo mostrar retornos rastreáveis, isso pode elevar o padrão de exigência de outras redes que ainda dependem de estruturas menos transparentes.

Quais níveis técnicos importam agora?

  • ‘O Piso de Concreto’ – US$ 0,62: suporte que foi testado diversas vezes e é fundamental. Se perder esse nível, significa que o fundo pode estar descartado.
  • ‘A Resistência Imediata’ – US$ 0,81: máxima registrada após o anúncio. Se romper esse valor, pode abrir espaço para atingir a marca de US$ 1,00.
  • ‘O Teto de Vidro’ – US$ 1,00: um ponto psicológico que não é mantido desde 2024. Para confirmar essa marca, é essencial que os primeiros investimentos do fundo sejam concretizados.
  • ‘O Gatilho On-Chain’ – TVL de US$ 300 milhões: dobrar o TVL atual seria um marco inicial para medir o sucesso do fundo até 2026, com primeiros investimentos já confirmados em 2025.
  • ‘A Zona de Decisão’ – TVL de US$ 1 bilhão: alcançando esse patamar, a **Cardano** entra para a lista dos maiores ecossistemas DeFi e a meta de US$ 3 bilhões até 2030 se torna plausível. Se conseguir isso antes de 2028, será um sinal forte para investidores institucionais.

A liquidez real será o fator decisivo. Anúncios de governança podem trazer volatilidade a curto prazo, mas somente a liquidez de protocolos funcionais sustentará uma tendência de crescimento duradouro.

Como isso afeta o investidor brasileiro?

Efeito BRL: Com o dólar na casa de R$ 5,80, o investidor que possui ADA tem uma exposição dupla: ao dólar e ao câmbio. Se o ADA aumentar 30%, mas o real se valorizar 10%, o ganho em reais seria um pouco mais de 17%. Em momentos de tensão no câmbio, como os que ocorreram entre 2024 e 2025, ativos digitais podem servir como uma proteção parcial contra o risco cambial. Portanto, o investidor deve enxergar o câmbio não como ruído, mas como um elemento fundamental ao se avaliar o retorno em ADA.

Acesso prático: O ADA pode ser adquirido nas plataformas brasileiras regulamentadas, como Mercado Bitcoin, Foxbit e Binance Brasil, que oferecem pares diretos com BRL. Se preferir uma abordagem mais tradicional, o HASH11 na B3 oferece exposição ao setor cripto, mas não garante uma alocação específica em ADA. Para aqueles que desejam se envolver diretamente com protocolos DeFi da Cardano, como staking ou plataformas como Minswap e Liqwid, é necessário usar carteiras de autocustódia compatíveis, lembrando das obrigações fiscais.

Obrigações fiscais: Os ganhos com ADA são tributados conforme a legislação brasileira. Vendas acima de R$ 35.000 estão sujeitas a alíquotas progressivas que variam entre 15% e 22,5%. O pagamento deve ser feito via DARF até o último dia útil do mês seguinte. Operações em protocolos DeFi também são consideradas tributáveis, então é importante manter um controle detalhado. É aconselhável consultar um contador especializado para lidar com as especificidades fiscais de ADA e outros ativos digitais.

Riscos e o que observar

  • ‘O Risco da Promessa Sem Entrega’ – A primeira etapa é fácil. O desafio real será se os US$ 15 milhões do primeiro trecho forem investidos em startups que geram resultados mensuráveis. Fique atento ao painel público prometido – se não aparecer em Q2 2026, a governança do fundo pode ser questionada.
  • ‘O Risco da Competição Assimétrica’ – **Ethereum** e **Solana** têm ecossistemas mais desenvolvidos. Se esses protocolos avançarem mais rápido que a **Cardano**, a proposta do **Orion Fund** pode perder força rapidamente. Monitorar o fluxo de BTC para a **Cardano** será essencial.
  • ‘O Risco de Concentração de Gestor’ – O futuro do fundo depende da **Draper Dragon**, que embora tenha experiência em cripto, ainda não tem um histórico com fundos desse tamanho. Qualquer desvio ou erro pode afetar o capital do tesouro. O SPV e o painel são salvaguardas, mas não garantem resultados.
  • ‘O Risco do Prazo Elástico’ – A meta de US$ 3 bilhões em TVL até 2030 cobre um longo período e o contexto competitivo pode mudar muito. O mercado julgará o fundo pelas entregas a cada fase, não por promessas futuras.
  • ‘O Risco Regulatório Cruzado’ – Fundos que investem em startups de cripto navegam em águas regulatórias ambíguas. O que pode ser considerado um investimento viável pode mudar a qualquer momento e isso impacta o retorno ao tesouro.

O principal ponto a ser observado nos próximos meses é a publicação das primeiras alocações concretas desse primeiro trecho do fundo. Especialmente se os projetos financiados já tiverem um TVL mensurável. Um portfólio inicial sem tração pode sinalizar que o **Orion Fund** está apenas repetindo os erros do Project Catalyst.

O cenário é claro: o Orion Fund precisa investir os primeiros US$ 15 milhões em projetos que mostrem crescimento real no TVL. Se isso acontecer, a tesouraria do fundo poderá validar sua estratégia, também permitindo que o ADA atinja novos patamares. Se não, ele pode cair e ficar aguardando um novo ciclo.

Rafael Cockell

Administrador, com pós-graduação em Marketing Digital. Cerca de 4 anos de experiência com redação de conteúdos para web.

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