Vietnã restringe negociação cripto externa e cria exchanges locais
O Ministério das Finanças do Vietnã está preparando novas regras que pretendem barrar os cidadãos de operarem com criptomoedas em plataformas internacionais. Enquanto isso, bancos privados e corretoras locais se preparam para a instalação das primeiras exchanges legalmente registradas no país. Essa mudança, conforme relatado pela Reuters, busca concentrar o fluxo de dinheiro e diminuir os riscos financeiros gerados por um mercado de criptomoedas sem regulamentação. Se essas normas forem colocadas em prática, milhões de traders vietnamitas terão que abandonar as plataformas globais e se adaptar a um ambiente de negociação mais controlado.
Essa movimentação ocorre em um momento crucial, onde países em desenvolvimento tentam transformar as criptomoedas de uma ameaça para uma oportunidade de arrecadação fiscal e inovação. Recentemente, as tendências mostram uma pressão crescente por conformidade nas operações, o que sugere um movimento coordenado que visa nacionalizar a infraestrutura de negociação de ativos digitais.
Contexto do mercado
A relação do Vietnã com as criptomoedas sempre foi um pouco complicada. O Banco Estatal do Vietnã proibiu que criptoativos fossem usados como forma de pagamento há anos, mas a posse e negociação de ativos digitais ficavam em uma área cinza da lei. Isso acabou ajudando o país a se tornar um dos maiores centros de adoção mundial. Em 2025, a situação começou a mudar com a aprovação da Lei da Indústria de Tecnologia Digital, que estabeleceu uma estrutura legal para criptoativos.
Esse novo marco regulatório deu origem a um programa piloto de cinco anos, iniciado em setembro de 2025, que visa criar um ambiente seguro e reconhecido para a negociação de criptomoedas. Essa estratégia, que lembra a ideia de uma “cerca regulatória”, tenta controlar a saída de capitais sem sufocar inovações. Outras exchanges estão buscando licenças em países com regras mais flexíveis, mas o Vietnã parece decidido a favorecer os operadores locais.
Recentemente, as autoridades levantaram preocupações sobre o uso de stablecoins e criptomoedas em remessas e como forma de poupança, já que o Vietnã ocupa um lugar de destaque no Índice Global de Adoção da Chainalysis. O volume de transações do país é um dos maiores do Sudeste Asiático, e controlar esses fluxos se tornou uma prioridade para o governo.
O que está por trás dessa movimentação?
Imagine o mercado de criptomoedas no Vietnã como um enorme oceano, onde os traders navegam livremente, utilizando plataformas internacionais para obter seus lucros. O governo, nessa analogia, não consegue monitorar o que está acontecendo e, portanto, não consegue reter impostos sobre esses ganhos.
Agora, com as novas regras, o governo quer criar uma “marina fechada”. Isso significa que os traders não poderão mais usar plataformas estrangeiras e terão que operar em um ambiente controlado pelo governo, obrigando-os a usar apenas exchanges locais. Assim, o governo poderá supervisionar as transações, garantindo que o capital permaneça dentro do país e que os impostos sejam devidamente cobrados.
Para os grandes bancos locais, essa é uma oportunidade de se tornarem monopolistas no setor, eliminando a concorrência das exchanges internacionais e capturando toda a movimentação financeira dos usuários.
Quais são os dados e fundamentos destacados?
Alguns pontos importantes sobre essa nova proposta e o cenário atual incluem:
Volume de Negociação: O Vietnã movimentou mais de US$ 200 bilhões (cerca de R$ 1,16 trilhão) em transações de criptomoedas nos últimos 12 meses, de acordo com a Chainalysis.
Requisitos de Capital: Para operar uma exchange licenciada, as empresas precisam ter um capital mínimo de 10 trilhões de dongs, equivalente a aproximadamente US$ 400 milhões (cerca de R$ 2,3 bilhões).
Limitação de Propriedade Estrangeira: As novas regras limitam a participação estrangeira nas exchanges a 49%, assegurando o controle local.
Candidatos à Licença: Pelo menos cinco empresas já se qualificaram, incluindo filiais do Techcombank, VPBank, LPBank e a corretora VIX Securities.
Preocupações do Governo: O governo menciona explicitamente o risco de saídas de capital não controladas como motivação para restringir o uso de plataformas estrangeiras.
Essas exigências colocam uma barreira alta para novos entrantes, favorecendo apenas os grandes grupos financeiros e excluindo startups menores e exchanges internacionais.
Como isso afeta o investidor brasileiro?
Enquanto essa proibição se aplica apenas aos vietnamitas, é importante que os investidores brasileiros fiquem atentos às repercussões. O Vietnã é um dos grandes mercados de criptomoedas e uma migração significativa de liquidez para plataformas locais pode impactar a liquidez global de certos ativos, principalmente em áreas como jogos e NFTs.
O modelo do Vietnã é um alerta sobre os riscos de nacionalização do mercado. No Brasil, embora não haja uma proibição formal de exchanges internacionais, as novas leis tributárias começam a criar restrições que podem incentivar o mercado a manter ativos no país ou declarar detalhadamente as propriedades no exterior. Com o cenário brasileiro em constante evolução, o exemplo do Vietnã mostra como regras podem mudar rapidamente em nome do controle financeiro.
Atenção, investidor brasileiro: vale lembrar que o acesso a exchanges internacionais não é garantido a longo prazo. Diversificar a custódia dos seus ativos com carteiras próprias pode ser uma forma inteligente de se proteger das mudanças regulatórias.
Riscos e o que observar
Um dos riscos mais imediatos é a possibilidade de surgimento de um mercado paralelo ou do uso de VPNs para driblar as restrições, o que pode levar o governo a implementar ações mais severas, como bloqueios de IP ou penalidades para os usuários. Se essa nova abordagem for exitosa em atrair liquidez, é possível que outros países da região e mercados em desenvolvimento adotem práticas semelhantes, o que fragmentaria ainda mais a liquidez do Bitcoin e de outras criptomoedas.
Fique de olho na finalização das novas regras e na data de lançamento das exchanges licenciadas. Caso ocorra uma migração em massa de usuários das corretoras globais, poderemos observar uma volatilidade temporária em tokens que têm uma forte base de usuários na Ásia. O modo como as grandes exchanges globais responderão a essa mudança de mercado será um indicativo significativo da adaptação da indústria frente ao aumento do protecionismo.





