Brasil pode atingir 1 milhão de BTC: o que realmente está em debate
Durante muito tempo, as reservas financeiras de um país eram basicamente compostas por ouro, dólares e títulos do governo. Quando ocorrem turbulências na economia, como fuga de capital ou dificuldades em honrar dívidas externas, esse “colchão” financeiro é acionado. No Brasil, atualmente, está em pauta a inclusão de um novo ativo nessas reservas: o Bitcoin. Essa discussão ganhou força com o Projeto de Lei 4.501/2024 e, especialmente, com o substitutivo apresentado em fevereiro de 2026, que ampliou as propostas iniciais.
O que realmente chamou a atenção foi a sugestão de acumular até 1 milhão de BTC em cinco anos. Como o total de Bitcoins é limitado a 21 milhões, isso representaria cerca de 5% do estoque total da moeda. Em termos mais simples, seria como um país decidir adquirir uma parte significativa de um recurso raro cujo suprimento não pode ser aumentado. Essa ideia deixou de ser apenas uma curiosidade legislativa e passou a ser uma questão de política econômica relevante.
O projeto original buscava criar a RESBit, que funcionaria como uma reserva estratégica de bitcoins. O objetivo dessa iniciativa era diversificar os ativos do Tesouro e proteger as reservas contra oscilações cambiais. O substitutivo, no entanto, mudou a abordagem, fixando uma meta clara de acúmulo de Bitcoins e incluindo outras medidas para expandir o ecossistema cripto. A diferença entre as duas propostas é como comparar permitir que um fundo compre um pouco de um novo ativo e transformar isso em uma estratégia central de investimentos.
A comparação com outros países ajuda a entender a dimensão do debate. Por exemplo, El Salvador é um caso conhecido por adotar o Bitcoin de forma estatal e possui cerca de 7,6 mil BTC. Nos Estados Unidos, a reserva estratégica criada em 2025 se baseou principalmente em Bitcoins apreendidos, somando cerca de 200 mil BTC. Se o Brasil realmente decidir buscar 1 milhão de BTC, estaria numa liga à parte.
Os defensores da proposta têm um argumento fácil de entender. Muitas reservas internacionais estão concentradas em dólares e títulos americanos. Isso oferece segurança, mas também grande dependência. É como uma família que guarda toda a poupança em um único banco. Funciona até que algo mude — seja uma alteração nas taxas de juros ou tensões políticas. O Bitcoin, como um ativo escasso e global, poderia servir para diversificar essa dependência.
A analogia com o ouro é útil. Durante séculos, esse metal foi visto como uma reserva de valor, por ser escasso e não depender da promessa de um governo. O Bitcoin tenta replicar algumas dessas características em uma forma digital. Ninguém pode simplesmente “imprimir” mais; as regras de oferta já estão definidas. Com uma economia cada vez mais digital, muitos acreditam que o ouro físico pode não ser o único ativo escasso importante nas próximas décadas.
Além disso, há uma questão geopolítica. Nos últimos anos, sanções e congelamentos de ativos mostraram que reservas internacionais não são totalmente neutras. Um país pode ter dólares, mas ainda assim está preso à dinâmica de outros Estados. Os adeptos do Bitcoin argumentam que ele pode dar um maior grau de autonomia a um país, já que não depende das estruturas políticas do sistema monetário atual. Mas é importante lembrar que essa autonomia não exclui riscos econômicos.
Entretanto, não podemos ignorar as desvantagens dessa ideia. A volatilidade do Bitcoin é um ponto crítico. As reservas internacionais devem oferecer liquidez e previsibilidade em momentos de crise. Um ativo que pode sofrer quedas de 20%, 30% ou até 50% em pouco tempo pode afetar essa proteção. Para exemplificar, imagine que um governo gaste R$ 100 bilhões em Bitcoin, e o valor desse ativo cai 40%. Essa perda contábil rapidamente se torna um problema político, mesmo que o preço logo se recupere.
Outro desafio é a escala. Comprar uma quantidade imensa de Bitcoin não é igual a adquirir títulos do Tesouro americano. O mercado de Bitcoin, embora grande para os padrões de cripto, ainda é pequeno quando comparado ao mercado global de dívidas soberanas. Se um país tenta comprar volume excessivo, pode inflacionar os preços. E se precisar vender rapidamente em caso de crise, pode desvalorizar o ativo. No contexto brasileiro, a meta de 1 milhão de BTC é ambiciosa o suficiente para impactar o próprio mercado.
Por fim, há questões institucionais a serem consideradas. Armazenar criptomoedas envolve aspectos técnicos como custódia digital e segurança que não fazem parte da gestão convencional de reservas. Embora seja possível, não é simples. Um título do governo não desaparece porque alguém perdeu uma chave privada, enquanto uma reserva em cripto mal gerida pode levar a uma crise de confiança.
Por outro lado, ignorar completamente a conversa sobre ativos digitais pode ser arriscado. Se as criptomoedas se tornarem relevantes no sistema financeiro internacional, países que não se prepararem podem se ver em desvantagem. Recentemente, muitos governos começaram a encarar as criptomoedas não apenas como uma volatilidade de mercado, mas como potenciais instrumentos de política econômica.
No Brasil, a discussão sobre Bitcoin agora transcende o universo dos investidores e alcança as esferas econômicas. A pergunta não é mais se os países devem ter Bitcoin em suas reservas, mas sim quando e em qual escala isso irá ocorrer. Assim como no passado com o ouro, a relevância dos ativos digitais nas reservas internacionais será mais moldada pelos governos dispostos a explorar essa nova proposta.





