Empresas da Venezuela adotam criptomoedas diante da escassez de dólar
A escassez crônica de dólares na Venezuela tem levado o setor privado a buscar alternativas financeiras rapidamente. Um relatório recente mostrou que as pequenas e médias empresas (PMEs) estão se voltando cada vez mais para as criptomoedas para conseguir importar insumos básicos e manter suas operações.
As promessas do governo de melhorar a alocação de divisas ainda não se concretizaram, e o novo sistema oficial tem muitos obstáculos. Os leilões de dólares são irregulares e, muitas vezes, não atendem a esses empresários, que enfrentam a constante desvalorização do bolívar.
Fracasso dos leilões e o impacto nos preços
Para os comerciantes do dia a dia, a luta é intensa. Um dono de uma empresa farmacêutica, que pediu para não ser identificado, contou que suas tentativas de comprar dólares nos leilões oficiais foram barradas três vezes, sem qualquer explicação. Sem acesso à moeda americana, fica impossível trazer os insumos necessários para produzir medicamentos essenciais, como analgésicos e antitérmicos.
“Você não sabe a que custo vai repor a mercadoria porque não sabe quando irá conseguir os dólares nem qual será a taxa”, desabafou o empresário. A maioria dos vendedores recebe bolívares, que perdem valor rapidamente devido à inflação. E enquanto isso, a produção deve continuar.
A inflação imensa, que chega a 600%, forçou muitos empresários a ajustar os preços de seus produtos drasticamente para cobrir custos nos mercados paralelos. Uma pesquisa de uma das principais associações de indústrias do país revelou que 58% dos proprietários de médias empresas consideram a falta de divisas como o maior obstáculo para a produção.
Novo cenário geopolítico, velhos problemas bancários
A situação financeira na Venezuela continua muito isolada do sistema global, em grande parte por conta das sanções internacionais. Isso torna bem difícil acessar transferências bancárias e plataformas de pagamento.
Com a prisão do ex-presidente Nicolás Maduro em janeiro de 2026, esperava-se que a economia do país mudasse. Desde então, os EUA têm incentivado investimentos nas indústrias de petróleo, gás e mineração, resultando em vendas de petróleo equivalentes a cerca de US$ 2 bilhões. Até mesmo um membro alto do governo americano visitou Caracas, ressaltando a intenção de estabilizar o bolívar e combater a hiperinflação.
Contudo, na prática, os dólares não têm chegado efetivamente à economia. Especialistas afirmam que, entre janeiro e março de 2026, os leilões oficiais somaram apenas US$ 1,3 bilhão, uma queda de 13% em relação ao mesmo período no ano anterior. A maior parte dos dólares disponíveis vai para grandes indústrias, enquanto empresas menores em setores como tecnologia e química ficam de fora.
Criptomoedas: de emergência a necessidade diária na Venezuela
Com os controles rígidos do banco central e as barreiras impostas pelos bancos estrangeiros, as empresas estão encontrando nas criptomoedas uma forma de escapar dessa situação. Tecnologias como a blockchain estão ajudando a resgatar o comércio corporativo neste cenário desafiador.
As criptomoedas, que já foram um recurso essencial para a população venezuelana, estão se reafirmando como uma ferramenta vital para os negócios. Embora muitos empresários pensassem que o aumento nas exportações de petróleo poderia reduzir a necessidade de ativos digitais, a dura realidade os forçou a incorporá-los novamente no seu dia a dia, especialmente para pagar fornecedores internacionais.
“Nós, que não conseguimos ir aos leilões, vamos para o outro mercado”, resumiu um empresário do setor químico. Em uma economia onde o sistema tradicional falha e a moeda fiduciária perde valor rapidamente, as criptomoedas estão se mostrando uma alternativa valiosa para a sobrevivência financeira dessas empresas.





