Bitcoin forma cidades invisíveis com desperdício de energia
O cenário de mineração de Bitcoin está passando por uma transformação impressionante. No passado, as indústrias se estabeleciam em regiões portuárias e centros urbanos, buscando mão de obra barata e boas rotas logísticas. Mas agora, o jogo mudou completamente. As mineradoras estão à procura de energia desperdiçada, e isso está criando novas dinâmicas econômicas em locais inusitados.
Para minerar Bitcoin, tudo o que é preciso é uma conexão de fibra óptica, alguns computadores especializados e um espaço, muitas vezes, bem afastado. A produção é totalmente digital, sem a necessidade de caminhões ou embarcações para movimentar o produto. Essa mudança está fazendo com que locais remotos, que antes eram ignorados, agora se tornem hotspots para operações de mineração.
Energia em Excesso e Mineração
Um exemplo claro dessa nova realidade é o Texas. Durante os dias ensolarados, a oferta de energia solar e eólica é tão grande que os preços de eletricidade podem até cair para níveis negativos. Nesses momentos, é mais caro para os geradores desligarem as turbinas do que pagar para que alguém utilize a eletricidade. Ao aproveitar essa oportunidade, mineradoras como a Riot conseguiram faturar milhões ao interromper suas atividades em horários de pico, sendo recompensadas por isso.
Em 2023, por exemplo, a Riot arrecadou US$ 71 milhões em créditos de energia e já acumula mais de US$ 46 milhões nos primeiros trimestres de 2025. Essa situação se torna um subsídio natural para as operações de mineração, criando uma relação de benefício mútuo entre as mineradoras e os provedores de energia.
Velocidade das Mudanças
Ao contrário das indústrias tradicionais, que precisam de infraestrutura robusta, as mineradoras de Bitcoin são extremamente ágeis. Em 2021, após o fechamento das atividades na China, várias fazendas rapidamente migraram para os Estados Unidos e o Cazaquistão. A participação dos EUA na taxa global de hash saltou de um único dígito para 38% em pouco tempo.
Essas operações são movidas por computadores ASIC, que podem ser facilmente transportados e se adaptar a novos incentivos fiscais ou contratos energéticos. Com isso, a mobilidade se torna um aspecto estratégico para a mineração.
Novos Hubs de Mineração
Nos Estados Unidos, regiões como o Texas, o Sudeste e as Montanhas Rochosas viraram verdadeiros hubs de mineração. Essas áreas têm um excedente de energia renovável e melhores políticas locais para operações desse tipo. No Texas, por exemplo, as mineradoras são tratadas como “recursos de carga controlável”, podendo ser desligadas rapidamente para ajudar na estabilidade da rede elétrica.
Empresas como a Lancium exploram essa capacidade, e a Riot ainda detalha mensalmente seus ganhos, quase como se fosse uma prestadora de serviços para a rede elétrica.
Questões Globais e Diplomáticas
Fora dos EUA, outros países também estão explorando a mineração de Bitcoin de maneira inovadora. O Butão, por exemplo, está investindo na construção de uma capacidade significativa de mineração utilizando energia hidrelétrica. O objetivo é usar os lucros das criptos até para financiar salários do governo, tornando a mineração uma ferramenta de estratégia nacional.
Da mesma forma, El Salvador está desenvolvendo a ‘Bitcoin City’, que se baseia em uma usina de energia geotérmica em um vulcão, com incentivos fiscais ligados ao uso de Bitcoin.
Repensando o Mapa da Indústria
Historicamente, as cidades surgiam em torno de portos e ferrovias. Agora, a presença do Bitcoin está transformando esse conceito. A nova lógica é simples: onde houver energia sobrando e poucos entraves regulatórios, teremos uma nova atividade econômica. O produto final da mineração é digital, demandando menos mão de obra e fazendo com que o impacto se meça em megawatts.
Isso resulta na criação de hubs inesperados, como galpões localizados em regiões frias que têm energia abundante à disposição.
Futuro da Mineração e Além
A mineração de Bitcoin já está servindo de exemplo para outros setores. A inteligência artificial, por exemplo, também busca lugares onde a energia é barata para os seus data centers. É verdade que, para determinadas aplicações, a proximidade com grandes centros é crucial devido à baixa latência, mas tarefas mais pesadas já estão migrando para locais distantes com energia disponível.
Países como a China, mesmo após a repressão à mineração, estão observando o renascimento da atividade em áreas com excedente de energia.
A Nova Era
Com tudo isso, estamos entrando em uma era onde as cidades podem começar a se formar em torno de usinas de energia e infraestruturas digitais, ao invés de apenas baseadas em populações e forças de trabalho locais. O Bitcoin é o primeiro grande passo visível nesse novo mapa, mostrando onde estamos desperdiçando recursos energéticos e como podemos monetizá-los de formas inovadoras.





