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Desenvolvedores do Bitcoin lançam BIP-361 para segurança futura

O cypherpunk e desenvolvedor Jameson Lopp, junto com um grupo de cinco especialistas em segurança do Bitcoin, lançou no GitHub, no dia 14 de abril de 2026, a Bitcoin Improvement Proposal 361. Chamado formalmente de Post Quantum Migration and Legacy Signature Sunset, essa proposta tem um formato que se desdobra em três fases. O foco principal é bloquear novos envios para endereços P2PK mais antigos, congelar moedas que não forem migradas a tempo e oferecer caminhos de recuperação para aqueles que perderem o prazo. O alvo são cerca de 1,7 milhão de BTC que estão expostos a ataques de algoritmos quânticos, como o famoso algoritmo de Shor.

Essa proposta gerou um debate intenso dentro da comunidade do Bitcoin, com críticos levantando a preocupação de que, pela primeira vez, se estaria sugerindo o congelamento compulsório de moedas de terceiros. Há até quem especule que isso poderia afetar bitcoins atribuídos ao próprio Satoshi Nakamoto.

Contexto do Protocolo

A ameaça da computação quântica não é uma novidade para quem acompanha o tema de perto. A discussão sobre como algoritmos quânticos podem explorar chaves públicas expostas já vem ocorrendo desde 2010. O Instituto Nacional de Padrões e Tecnologia dos EUA já alertou sobre o uso de criptografia de curva elíptica (ECDSA), mencionando que essa tecnologia pode ser descoberta por computadores quânticos com correção de erros suficientemente avançados.

Em fevereiro de 2026, o BIP-360 surgiu como um primeiro passo, introduzindo o formato Pay-to-Merkle-Root (P2MR), que promete proteção contra ataques quânticos. No entanto, o FIP-361 é um passo adiante, focando nas moedas antigas que ainda não migraram. O problema é considerável: estima-se que aproximadamente 6,7 milhões de BTC estejam em endereços com chaves públicas expostas, e isso inclui os primeiros blocos minerados por Satoshi. O valor dessas moedas atinge a marca de US$ 74 bilhões, o que representa uma preocupação real se um computador quântico conseguir acessar essas carteiras.

Imagine Assim

Agora, para simplificar, pense em um condomínio na Faria Lima onde vários apartamentos têm fechaduras antigas. Esse tipo de fechadura pode ser facilmente aberto por chaves modernas. Ao perceber essa vulnerabilidade, a administração decide implementar um novo sistema de segurança. O BIP-361 é essa proposta do síndico.

Na Fase A, que acontece nos três primeiros anos após a ativação, não será mais possível enviar moedas para os endereços antigos. Mas quem já tiver a chave antiga ainda pode usá-la. Na Fase B, dois anos depois, essas fechaduras antigas são desativadas: qualquer apartamento que não migrou para as novas fechaduras será selado. Na Fase C, existe uma saída de emergência: quem perdeu o prazo mas pode provar que tinha a chave, pode abrir seu apartamento sem precisar divulgar a senha.

O que se destaca aqui é que, enquanto no condomínio a decisão do síndico precisaria de um consenso entre todos, no BIP-361 a questão é bem mais complexa, levantando muitas discussões sobre a autonomia e os direitos dos detentores de bitcoins.

O Que Os Dados Revelam?

  • Fase A – O Prazo de Saída: Dura três anos e proíbe novos envios para endereços antigos. A ideia é interromper a criação de novas vulnerabilidades e fazer a comunidade perceber a urgência de se adaptarem.

  • Fase B – O Sunset das Assinaturas: Depois de cinco anos, as assinaturas ECDSA de endereços legados serão invalidadas, tornando as moedas que não foram migradas inacessíveis. Esta fase é a mais polêmica, pois marca um passo que poderia fazer com que moedas legítimas se tornassem inviáveis de serem gastas por falta de ação do detentor.

  • Fase C – A Tábua de Salvação ZK: Oferece um mecanismo de recuperação para quem perdeu o prazo, permitindo que provem que conheciam suas chaves sem precisar revelá-las.

Beleza, mas e os riscos? Bueno, a comunidade está bem dividida. Muitos defendem que congelar moedas é um golpe na soberania dos detentores. Esse descontentamento já levou alguns a sugerir abordagens alternativas que não exigem mudanças tão drásticas.

O Que Muda na Estrutura do Mercado?

Se o BIP-361 for aprovado, será a primeira vez que o protocolo Bitcoin fará distinção entre “moedas válidas” e “moedas em extinção”. Isso poderá obrigar exchanges e serviços a atualizar seus sistemas para identificar e comunicar os riscos associados a endereços antigos, movimentando o mercado de forma significativa.

Essa mudança pode gerar efeitos diretos no preço das moedas, já que a proposta também toca na ideia de que a escassez será programática. Uma saída bem planejada poderia ser positiva, mas a aplicação da proposta também traz à tona a necessidade de revisar o conceito de “suas chaves, suas moedas”, visto que simplesmente ter as chaves não será suficiente se não houver ação do dono.

E Como Fica Para o Investidor Brasileiro?

Quem está investindo em BTC no Brasil por meio de exchanges não precisa se preocupar tanto com essa mudança, pois muitas dessas plataformas não utilizam os endereços que estão sob risco. Para os que mantêm seus bitcoins em autocustódia, a recomendação é verificar o formato do endereço. Endereços que começam com bc1q ou bc1p estão seguros, enquanto aqueles que começam com 1 precisam de atenção redobrada.

Em relação à tributação, as regras não mudam com o BIP-361. Os ganhos com Bitcoin continuam a ser tributáveis como qualquer outro ativo sob as normas vigentes.

Riscos e O Que Observar

Um dos riscos principais é a possibilidade de a proposta não receber aceitação suficiente, como já ocorreu em ocorrências passadas. Se ela não obter feedback construtivo de desenvolvedores com histórico na comunidade, isso pode sinalizar que o movimento está estagnado. Há também a preocupação com o congelamento de moedas legítimas por falta de ação – uma situação sem precedente que poderia gerar debates jurídicos sérios. Além disso, a urgência do BIP-361 pode ser contestada, visto que atualmente não existem computadores quânticos prontos para desmantelar o protocolo Bitcoin.

Essas questões mostram que, enquanto o debate sobre a segurança quântica do Bitcoin é real, o caminho para a adaptação apresenta muitos desafios, e paciência parece ser a melhor estratégia por hora.

Rafael Cockell

Administrador, com pós-graduação em Marketing Digital. Cerca de 4 anos de experiência com redação de conteúdos para web.

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